Porque é que Queiroz deve ficar
Julho 4, 2010 2 Comentários
Esta é a questão que faz rolar cabeças em Portugal. A continuidade do seleccionador nacional está em debate aceso e contínuo e a saída de ex-adjunto de Ferguson no Man Utd é desejada pela maioria dos portugueses. Pessoalmente, acho que seria um erro crasso mandar embora Queiroz, caso este ainda esteja convicto que tem capacidade mental para continuar a dirigir a selecção.
Vamos então ver uma coisa, penso que é por demais óbvio que a responsabilidade está longe de ser apenas do seleccionador. A qualidade de Queiroz pode ser questionável, sendo que as passagens pelo Sporting, Real Madrid e África do Sul tiveram resultados negativos, mas penso que a cerca que montaram em torno dele é enorme e presunçosa. Não acredito que um profissional de futebol que passa cerca de 4 anos como adjunto e braço direito de Alex Ferguson não seja competente e não seja um entendido da matéria. Penso que Queiroz é bastante competente, incrivelmente organizado. Falha, sem dúvida, em algumas questões técnicas, acima de tudo na escolha dos recursos humanos. Algumas das suas opções podem levar a uma abordagem mais defensiva, o que acho que seja aceitável, tendo em conta o panorama actual do futebol, que é cada vez mais táctico e defensivo que há 20, 30 anos atrás. Por isso, penso que Queiroz consegue implementar um sistema actual e mais adequado para o perfil dos actuais jogadores.
O segundo ponto que acho que é importante referir é a desconfiança que o seleccionador teve desde logo que entrou na FPF. Se há algo que me faz confusão é alusão que o povo ganhou com o sucesso que a selecção teve nesta última década. Boas prestações em 2000, 2004 e 2006 criaram a possibilidade de Portugal poder ser uma das selecções de topo. Na minha opinião, até 2004, Portugal era uma das melhores equipas à escala planetária, possuindo ainda nas suas fileiras os frutos que nasceram da chamada geração de ouro. Devo então agora relembrar que foi Carlos Queiroz o grande mastermind de toda essa colheita de jogadores excepcionais. Eu sei que treinar uma equipa de sub-20 é diferente de treinar uma selecção A, mas não podemos de forma alguma tirar mérito e tentar desvalorizar, referindo que “apenas presta com os putos”. Essa comigo simplesmente não pega. Mas voltando ao assunto inicial, após-2004, penso que Portugal perdeu grande parte da sua identidade, perdendo muita qualidade de jogo. As prestações em 2006 e 2008, mesmo assim, foram boas na minha opinião. Mas o povo português, quase sedento de vitórias, exigia mais. E, na altura, Scolari teve de pagar a factura. Eu percebo a crença que os portugueses tem, mas é bom relembrar que há 12 anos, Portugal só tinha ido ao Mundial 66 e 86 e ao Euro 84 e 96. Nesta última década, não falhamos uma grande competição. Por isso, acho que é bem mais importante louvar este feito, que se formos a analisar nas restantes selecções europeias, apenas um punhado conseguiu a qualificação para todas as competições, em vez de responsabilizar o que aconteceu de errado.
O terceiro e último ponto tem a haver com a qualidade do actual plantel, as características dos jogadores. Não vou considerar que temos um mau plantel, mas temos uma equipa francamente inferior há de 2000, 2002 ou mesmo 2004. Há que ter em conta que muitos destes jogadores não cresceram a jogar juntos, apenas existem alguns que tem alguns companheiros de equipa, nada mais. Grande parte da equipa anterior vinha já rotinada das selecções mais jovens. E a qualidade dos actuais jogadores é bastante discutível. Actualmente não temos um líder definido, visto que Ronaldo chumbou nesse teste. Não há um definido construtor de jogo, visto que Deco está consideravelmente velho e sem ritmo de jogo. Os médios alas, embora sejam de boa qualidade, não tem ligação com o meio-campo. Este, por sua vez, não consegue fazer transições em velocidade. Apesar de Meireles e Tiago serem bons jogadores, nenhum deles tem as características de último passe como Deco tem. E a presença de um nº10 é bastante importante na selecção portuguesa, para a criação de espaços para o ponta-de-lança e para os médios ala. Esta é, na minha opinião, a grande razão para que Ronaldo e Simão nunca apareceram neste Mundial, a constante falta de apoio e a insistência quase obrigatória no jogo directo nunca facilitou a vida dos extremos. O sector que continua a manter a qualidade é, sem questão alguma, a defesa. Ok, a insistência de Ricardo Costa, embora compreensível, foi sem questão alguma a grande falha de Queiroz no teste derradeiro frente à Espanha. Mas penso que a defesa nacional continua a demonstrar grande classe. Portanto, acho que tendo em conta todas estas circunstâncias, é de realçar a qualificação para os oitavos de final, em vez de crucificar o facto de não terem chegado mais longe. Há que relembrar que fomos eliminados por uma das melhores, senão mesmo a melhor selecção do mundo.
Visto isto, penso que o problema não é Carlos Queiroz. Algumas das suas opções são questionáveis, mas é a qualidade dos jogadores que determina o sucesso duma equipa. E penso que Portugal terá de esperar por mais uma fornada como a de 89-91 para poder sonhar com um título numa competição deste nível. Mas isto é futebol, quem sabe se não surgirá um brilharete em 2012?





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