Porque é que Queiroz deve ficar

Esta é a questão que faz rolar cabeças em Portugal. A continuidade do seleccionador nacional está em debate aceso e contínuo e a saída de ex-adjunto de Ferguson no Man Utd é desejada pela maioria dos portugueses. Pessoalmente, acho que seria um erro crasso mandar embora Queiroz, caso este ainda esteja convicto que tem capacidade mental para continuar a dirigir a selecção.
Vamos então ver uma coisa, penso que é por demais óbvio que a responsabilidade está longe de ser apenas do seleccionador. A qualidade de Queiroz pode ser questionável, sendo que as passagens pelo Sporting, Real Madrid e África do Sul tiveram resultados negativos, mas penso que a cerca que montaram em torno dele é enorme e presunçosa. Não acredito que um profissional de futebol que passa cerca de 4 anos como adjunto e braço direito de Alex Ferguson não seja competente e não seja um entendido da matéria. Penso que Queiroz é bastante competente, incrivelmente organizado. Falha, sem dúvida, em algumas questões técnicas, acima de tudo na escolha dos recursos humanos. Algumas das suas opções podem levar a uma abordagem mais defensiva, o que acho que seja aceitável, tendo em conta o panorama actual do futebol, que é cada vez mais táctico e defensivo que há 20, 30 anos atrás. Por isso, penso que Queiroz consegue implementar um sistema actual e mais adequado para o perfil dos actuais jogadores.

Carlos Queiroz

Carlos Queiroz

O segundo ponto que acho que é importante referir é a desconfiança que o seleccionador teve desde logo que entrou na FPF. Se há algo que me faz confusão é alusão que o povo ganhou com o sucesso que a selecção teve nesta última década. Boas prestações em 2000, 2004 e 2006 criaram a possibilidade de Portugal poder ser uma das selecções de topo. Na minha opinião, até 2004, Portugal era uma das melhores equipas à escala planetária, possuindo ainda nas suas fileiras os frutos que nasceram da chamada geração de ouro. Devo então agora relembrar que foi Carlos Queiroz o grande mastermind de toda essa colheita de jogadores excepcionais. Eu sei que treinar uma equipa de sub-20 é diferente de treinar uma selecção A, mas não podemos de forma alguma tirar mérito e tentar desvalorizar, referindo que “apenas presta com os putos”. Essa comigo simplesmente não pega. Mas voltando ao assunto inicial, após-2004, penso que Portugal perdeu grande parte da sua identidade, perdendo muita qualidade de jogo. As prestações em 2006 e 2008, mesmo assim, foram boas na minha opinião. Mas o povo português, quase sedento de vitórias, exigia mais. E, na altura, Scolari teve de pagar a factura. Eu percebo a crença que os portugueses tem, mas é bom relembrar que há 12 anos, Portugal só tinha ido ao Mundial 66 e 86 e ao Euro 84 e 96. Nesta última década, não falhamos uma grande competição. Por isso, acho que é bem mais importante louvar este feito, que se formos a analisar nas restantes selecções europeias, apenas um punhado conseguiu a qualificação para todas as competições, em vez de responsabilizar o que aconteceu de errado.

Portugal

Portugal

O terceiro e último ponto tem a haver com a qualidade do actual plantel, as características dos jogadores. Não vou considerar que temos um mau plantel, mas temos uma equipa francamente inferior há de 2000, 2002 ou mesmo 2004. Há que ter em conta que muitos destes jogadores não cresceram a jogar juntos, apenas existem alguns que tem alguns companheiros de equipa, nada mais. Grande parte da equipa anterior vinha já rotinada das selecções mais jovens. E a qualidade dos actuais jogadores é bastante discutível. Actualmente não temos um líder definido, visto que Ronaldo chumbou nesse teste. Não há um definido construtor de jogo, visto que Deco está consideravelmente velho e sem ritmo de jogo. Os médios alas, embora sejam de boa qualidade, não tem ligação com o meio-campo. Este, por sua vez, não consegue fazer transições em velocidade. Apesar de Meireles e Tiago serem bons jogadores, nenhum deles tem as características de último passe como Deco tem. E a presença de um nº10 é bastante importante na selecção portuguesa, para a criação de espaços para o ponta-de-lança e para os médios ala. Esta é, na minha opinião, a grande razão para que Ronaldo e Simão nunca apareceram neste Mundial, a constante falta de apoio e a insistência quase obrigatória no jogo directo nunca facilitou a vida dos extremos. O sector que continua a manter a qualidade é, sem questão alguma, a defesa. Ok, a insistência de Ricardo Costa, embora compreensível, foi sem questão alguma a grande falha de Queiroz no teste derradeiro frente à Espanha. Mas penso que a defesa nacional continua a demonstrar grande classe. Portanto, acho que tendo em conta todas estas circunstâncias, é de realçar a qualificação para os oitavos de final, em vez de crucificar o facto de não terem chegado mais longe. Há que relembrar que fomos eliminados por uma das melhores, senão mesmo a melhor selecção do mundo.

Portugal Sub-20 - 1991

Portugal Sub-20 - 1991

Visto isto, penso que o problema não é Carlos Queiroz. Algumas das suas opções são questionáveis, mas é a qualidade dos jogadores que determina o sucesso duma equipa. E penso que Portugal terá de esperar por mais uma fornada como a de 89-91 para poder sonhar com um título numa competição deste nível. Mas isto é futebol, quem sabe se não surgirá um brilharete em 2012?

Holanda – Futebol Total

Holanda

Holanda

Futebol Total é talvez o conceito de jogo mais inovador e, ao mesmo tempo, o mais arrojado de toda a história do futebol. Numa época em que muitas equipas já utilizavam sistemas como o 4-3-3 que o Brasil popularizou em 62, ou mesmo o 5-3-2 de Helenio Herrera, o Ajax e a Holanda de Rinus Michels adoptou uma filosofia de jogo em que todos os jogadores não tem uma posição fixa em campo. Ou seja, é feita uma adaptação por cada jogador para todas as posições no campo. Isto requer uma cultura táctica fora do normal e uma capacidade física brutal. A Holanda que participou no Mundial de 1974 personificou na perfeição esse sistema. Depois do grande sucesso do Ajax na Taça dos Campeões Europeus, era dado o assalto final ao título mais ansiado no mundo do futebol.

Com Cruyff a liderar a Laranja Mecânica, a equipa tornou-se um cabo dos tormentos para os adversários. A capacidade de rotação matava qualquer equipa que centrava marcações individuais, sendo também que a pressão sobre o homem da bola era feita ainda dentro do meio-campo do adversário, sempre pelo jogador que estivesse em melhor situação para fazer essa pressão.
A capacidade individual de cada um dos jogadores era abismal. Obviamente, Michels não aplicou este sistema de jogo por acaso, sendo que as características do plantel permitiam este jogo dinâmico. Então Cruyff, provavelmente um dos melhores senão mesmo o melhor jogador de sempre, era um autêntico craque.

Penso que actualmente é muito complicado implementar um sistema assim no futebol actual. A rigidez táctica que se pede na alta competição nos dias que correm não me parece que permita uma rotação tão grande na troca de posições. Isso acontece em algumas equipas de alto nível, como o Barcelona, onde o meio campo tem várias transições que podem criar mudança de posições, muito por culpa de Xavi e Iniesta, mas não numa escala tão grande como nesta Holanda. Outro pormenor importante tem a haver com o desgaste físico, penso que esta filosofia de Futebol Total implica um desgaste físico brutal, tendo em conta que, pelo menos, do meio-campo para a frente, a troca de posições e a pressão, aquando sem bola, é sempre constante.

É uma filosofia de jogo quase utópica, que a Holanda de 1974 conseguiu implementar quase na perfeição. Infelizmente, dirão alguns, apenas falhou no teste final frente à RFA. A Holanda teria de esperar mais 14 anos para conquistar uma grande competição de selecções, quando venceu o Euro 1988, com aquele golo simplesmente imortal de Van Basten na final frente à URSS. Resta saber até onde pode esta Holanda 2010 chegar neste Mundial. Será finalmente a conquista do título mundial, que ficou prometido com a super selecção de 74?

Argentina fora de jogo

Alemanha - Argentina

Alemanha - Argentina

Deu-me pena ver um jogador como Javier Mascherano nesta equipa da Argentina. Um médio defensivo incrivelmente culto tacticamente não merecia estar inserido numa equipa tão mal construída e organizada. Sem fio de jogo, sem construção, sem posicionamento. Esta é a Argentina do Mundial de 2010. Erros atrás de erros, uma cultura de jogo pobre, sempre na esperança do sucesso individual dos seus melhores jogadores. E num jogo que cada vez é mais táctico e físico, essa solução tem tendência a não aparecer. Foi o que aconteceu com a selecção alvi-celeste, frente ao futebol total da Alemanha. Vejamos alguns pormenores interessantes sobre este jogo:

  • A Alemanha jogou novamente com o seu sistema habitual, a colocação de um falso duplo pivot defensivo à frente da defesa voltou a ser a chave da equipa. Digo falso porque nem Khedira nem Schweinsteiger se fixam numa posição junto à linha defensiva. Ambos são incrivelmente fortes e resistentes, aparecendo sempre nas compensações defensivas ou apoiando as transições ofensivas. Neste último capítulo, o médio do Bayern esteve simplesmente estupendo. Depois, a alusão de que a equipa joga com 2 alas abertos nas faixas também causa alguma visão distorcida na estratégia da Argentina. Tanto Muller como Podolski tem tendência para jogar no centro. Por isso, o jogo apoiado nas alas não é a prioridade da Alemanha, tornando a zona central mais forte ainda. E claro, falta falar de Ozil, o jogador que define o último passe para o ponta de lança Klose ou para os 2 avançados interiores, Podolski e Muller.
  • A Argentina, incrivelmente, joga apenas com um médio centro, obrigando a Messi a tentar fazer o apoio a Mascherano e a buscar jogo atrás. Tanto Maxi Rodriguez como Di Maria jogaram durante bastante tempo encostados nas faixas. Ora, o que acontece: o posicionamento do tal duplo pivot da Alemanha esteve sempre em superioridade em relação ao meio campo da Argentina. Notou-se em várias situações que Mascherano simplesmente não tinha linhas de passe, com a equipa sempre demasiado subida. Pedia-se obrigatoriamente a utilização de mais um médio interior. Mascherano esteve sempre ocupado com as penetrações pelo centro de Ozil, mas o problema é que isto facilitou a vida aos alemães, tanto que toda a frente de ataque aparecia por aquela zona, incluindo os 2 médios centro, sendo que Schweinsteiger sentiu-se como um peixe dentro de água.
  • Apesar da duvidosa qualidade da zona defensiva da Argentina, onde Demichelis e Burdisso foram muito meninos e sempre sem pernas, esta não foi a razão para tamanha humilhação. A questão é que o despovoamento no meio-campo foi o tiro que Maradona deu no seu próprio pé. Sempre na expectativa que o jogo era decidido num lance individual, a equipa perdeu todo o seu equilíbrio. Pedia-se muito a entrada de Veron, Bolatti, Pastore, quem quer que fosse. Aquela zona tinha de ter pelo menos mais um homem. E é nesta altura, embora seja uma questão que tem sido discutida durante meses, que se questiona porque é que jogadores com Cambiasso, Lucho Gonzalez, Fernando Gago ou até mesmo Pablo Aimar não foram convocados. A quantidade de jogadores para a zona mais importante de todo o campo era incrivelmente escassa, para uma equipa que pensou sempre na zona de ataque em vez de estruturar uma equipa equilibrada. Esta foi a grande diferença entre a Argentina e o Brasil, na minha opinião. O Brasil era uma equipa equilibrada, a Argentina não. Mesmo, assim nenhuma delas foi tão brilhante como a equipa alemã, que mesmo orfã de Ballack, conseguiu estruturar o seu jogo e tem uma ocupação de espaços quase perfeito. Eu volto a frisar o duplo pivot da equipa, o grande segredo da equipa. Khedira e Schweinsteiger são excelentes jogadores, sendo que este último é, até agora, o meu jogador preferido da competição. Possante, com qualidade passe, tanto em passe curto ou longo, remate forte, resistência, visão de jogo, pulmão, capacidade de pressão, inteligência nas compensações defensivas e incisivo nas transições ofensivas. Enfim, o jogador completo.
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