Argentina fora de jogo
Julho 4, 2010 Deixe um Comentário
Deu-me pena ver um jogador como Javier Mascherano nesta equipa da Argentina. Um médio defensivo incrivelmente culto tacticamente não merecia estar inserido numa equipa tão mal construída e organizada. Sem fio de jogo, sem construção, sem posicionamento. Esta é a Argentina do Mundial de 2010. Erros atrás de erros, uma cultura de jogo pobre, sempre na esperança do sucesso individual dos seus melhores jogadores. E num jogo que cada vez é mais táctico e físico, essa solução tem tendência a não aparecer. Foi o que aconteceu com a selecção alvi-celeste, frente ao futebol total da Alemanha. Vejamos alguns pormenores interessantes sobre este jogo:
- A Alemanha jogou novamente com o seu sistema habitual, a colocação de um falso duplo pivot defensivo à frente da defesa voltou a ser a chave da equipa. Digo falso porque nem Khedira nem Schweinsteiger se fixam numa posição junto à linha defensiva. Ambos são incrivelmente fortes e resistentes, aparecendo sempre nas compensações defensivas ou apoiando as transições ofensivas. Neste último capítulo, o médio do Bayern esteve simplesmente estupendo. Depois, a alusão de que a equipa joga com 2 alas abertos nas faixas também causa alguma visão distorcida na estratégia da Argentina. Tanto Muller como Podolski tem tendência para jogar no centro. Por isso, o jogo apoiado nas alas não é a prioridade da Alemanha, tornando a zona central mais forte ainda. E claro, falta falar de Ozil, o jogador que define o último passe para o ponta de lança Klose ou para os 2 avançados interiores, Podolski e Muller.
- A Argentina, incrivelmente, joga apenas com um médio centro, obrigando a Messi a tentar fazer o apoio a Mascherano e a buscar jogo atrás. Tanto Maxi Rodriguez como Di Maria jogaram durante bastante tempo encostados nas faixas. Ora, o que acontece: o posicionamento do tal duplo pivot da Alemanha esteve sempre em superioridade em relação ao meio campo da Argentina. Notou-se em várias situações que Mascherano simplesmente não tinha linhas de passe, com a equipa sempre demasiado subida. Pedia-se obrigatoriamente a utilização de mais um médio interior. Mascherano esteve sempre ocupado com as penetrações pelo centro de Ozil, mas o problema é que isto facilitou a vida aos alemães, tanto que toda a frente de ataque aparecia por aquela zona, incluindo os 2 médios centro, sendo que Schweinsteiger sentiu-se como um peixe dentro de água.
- Apesar da duvidosa qualidade da zona defensiva da Argentina, onde Demichelis e Burdisso foram muito meninos e sempre sem pernas, esta não foi a razão para tamanha humilhação. A questão é que o despovoamento no meio-campo foi o tiro que Maradona deu no seu próprio pé. Sempre na expectativa que o jogo era decidido num lance individual, a equipa perdeu todo o seu equilíbrio. Pedia-se muito a entrada de Veron, Bolatti, Pastore, quem quer que fosse. Aquela zona tinha de ter pelo menos mais um homem. E é nesta altura, embora seja uma questão que tem sido discutida durante meses, que se questiona porque é que jogadores com Cambiasso, Lucho Gonzalez, Fernando Gago ou até mesmo Pablo Aimar não foram convocados. A quantidade de jogadores para a zona mais importante de todo o campo era incrivelmente escassa, para uma equipa que pensou sempre na zona de ataque em vez de estruturar uma equipa equilibrada. Esta foi a grande diferença entre a Argentina e o Brasil, na minha opinião. O Brasil era uma equipa equilibrada, a Argentina não. Mesmo, assim nenhuma delas foi tão brilhante como a equipa alemã, que mesmo orfã de Ballack, conseguiu estruturar o seu jogo e tem uma ocupação de espaços quase perfeito. Eu volto a frisar o duplo pivot da equipa, o grande segredo da equipa. Khedira e Schweinsteiger são excelentes jogadores, sendo que este último é, até agora, o meu jogador preferido da competição. Possante, com qualidade passe, tanto em passe curto ou longo, remate forte, resistência, visão de jogo, pulmão, capacidade de pressão, inteligência nas compensações defensivas e incisivo nas transições ofensivas. Enfim, o jogador completo.
