Espanha – Holanda

Hoje defrontaram-se as 2 melhores equipas deste campeonato do Mundo. Pode-se por em questão o real valor da equipa espanhola, mas o facto é que não há equipa que possa combater este jogo apoiado e de construção dos nuestros hermanos. Não é um jogo vistoso, tendo em conta que praticamente todos os adversários, incluindo esta Alemanha, tiveram de fechar todas as linhas de passe no seu meio-campo. Penso que isso reflecte bem o medo e o respeito que todos tem pela Espanha, que conseguiu finalmente chegar à final. Não foi um jogo fácil, mas foi uma vitória inteiramente justa. A Alemanha cedo percebeu que não havia condições para fazer um jogo aberto como foi contra a Argentina e a Inglaterra e o facto de ter jogado com as linhas bastante recuadas e o forte pressing do meio campo espanhol dificultou bastante a saída dos alemães. Mesmo assim, em algumas situações, a Alemanha poderia ter surpreendido com as já famosas transições de contra-ataque. Mas neste capítulo, sentiu-se muito a falta de Muller. Portanto, foi uma Alemanha que teve de se sujeitar ao que a Espanha deixou jogar, que tem inquestionavelmente o melhor meio-campo do mundo.

Quanto ao que a final nos reserva, penso que não fugirá muito do que aconteceu hoje. A Holanda tem uma disposição táctica muito semelhante à Alemanha, embora tenha um perfil de jogo mais parecido com a Espanha. Tendo em conta que Ozil andou completamente desaparecido hoje, penso que Sneijder não cairá na mesma ratoeira e vai recuar um pouco no meio-campo e construir jogo a partir de trás. Temos que relembrar que nem Van Bommell nem De Jong são construtores de jogo, não são jogadores de sair a jogar com a bola dominada. Portanto, o grande problema da Holanda será a quase inevitável centralização de jogo num único jogador (falo obviamente do Wesley Sneijder). Se a Espanha conseguir uma marcação forte no holandês como fez hoje Busquets com Ozil, penso que terá a tarefa relativamente mais fácil.

Vamos então ter de esperar mais uns dias para saber o desfecho deste Campeonato do Mundo. Uma coisa é certa: qualquer que seja o vencedor, será um vencedor incerto. Enquanto apreciador do futebol da Holanda, irei torcer pela Laranja Mecânica, mas se tivesse que apostar, o meu dinheiro cairia na selecção espanhola. Até lá.

Porque é que Queiroz deve ficar

Esta é a questão que faz rolar cabeças em Portugal. A continuidade do seleccionador nacional está em debate aceso e contínuo e a saída de ex-adjunto de Ferguson no Man Utd é desejada pela maioria dos portugueses. Pessoalmente, acho que seria um erro crasso mandar embora Queiroz, caso este ainda esteja convicto que tem capacidade mental para continuar a dirigir a selecção.
Vamos então ver uma coisa, penso que é por demais óbvio que a responsabilidade está longe de ser apenas do seleccionador. A qualidade de Queiroz pode ser questionável, sendo que as passagens pelo Sporting, Real Madrid e África do Sul tiveram resultados negativos, mas penso que a cerca que montaram em torno dele é enorme e presunçosa. Não acredito que um profissional de futebol que passa cerca de 4 anos como adjunto e braço direito de Alex Ferguson não seja competente e não seja um entendido da matéria. Penso que Queiroz é bastante competente, incrivelmente organizado. Falha, sem dúvida, em algumas questões técnicas, acima de tudo na escolha dos recursos humanos. Algumas das suas opções podem levar a uma abordagem mais defensiva, o que acho que seja aceitável, tendo em conta o panorama actual do futebol, que é cada vez mais táctico e defensivo que há 20, 30 anos atrás. Por isso, penso que Queiroz consegue implementar um sistema actual e mais adequado para o perfil dos actuais jogadores.

Carlos Queiroz

Carlos Queiroz

O segundo ponto que acho que é importante referir é a desconfiança que o seleccionador teve desde logo que entrou na FPF. Se há algo que me faz confusão é alusão que o povo ganhou com o sucesso que a selecção teve nesta última década. Boas prestações em 2000, 2004 e 2006 criaram a possibilidade de Portugal poder ser uma das selecções de topo. Na minha opinião, até 2004, Portugal era uma das melhores equipas à escala planetária, possuindo ainda nas suas fileiras os frutos que nasceram da chamada geração de ouro. Devo então agora relembrar que foi Carlos Queiroz o grande mastermind de toda essa colheita de jogadores excepcionais. Eu sei que treinar uma equipa de sub-20 é diferente de treinar uma selecção A, mas não podemos de forma alguma tirar mérito e tentar desvalorizar, referindo que “apenas presta com os putos”. Essa comigo simplesmente não pega. Mas voltando ao assunto inicial, após-2004, penso que Portugal perdeu grande parte da sua identidade, perdendo muita qualidade de jogo. As prestações em 2006 e 2008, mesmo assim, foram boas na minha opinião. Mas o povo português, quase sedento de vitórias, exigia mais. E, na altura, Scolari teve de pagar a factura. Eu percebo a crença que os portugueses tem, mas é bom relembrar que há 12 anos, Portugal só tinha ido ao Mundial 66 e 86 e ao Euro 84 e 96. Nesta última década, não falhamos uma grande competição. Por isso, acho que é bem mais importante louvar este feito, que se formos a analisar nas restantes selecções europeias, apenas um punhado conseguiu a qualificação para todas as competições, em vez de responsabilizar o que aconteceu de errado.

Portugal

Portugal

O terceiro e último ponto tem a haver com a qualidade do actual plantel, as características dos jogadores. Não vou considerar que temos um mau plantel, mas temos uma equipa francamente inferior há de 2000, 2002 ou mesmo 2004. Há que ter em conta que muitos destes jogadores não cresceram a jogar juntos, apenas existem alguns que tem alguns companheiros de equipa, nada mais. Grande parte da equipa anterior vinha já rotinada das selecções mais jovens. E a qualidade dos actuais jogadores é bastante discutível. Actualmente não temos um líder definido, visto que Ronaldo chumbou nesse teste. Não há um definido construtor de jogo, visto que Deco está consideravelmente velho e sem ritmo de jogo. Os médios alas, embora sejam de boa qualidade, não tem ligação com o meio-campo. Este, por sua vez, não consegue fazer transições em velocidade. Apesar de Meireles e Tiago serem bons jogadores, nenhum deles tem as características de último passe como Deco tem. E a presença de um nº10 é bastante importante na selecção portuguesa, para a criação de espaços para o ponta-de-lança e para os médios ala. Esta é, na minha opinião, a grande razão para que Ronaldo e Simão nunca apareceram neste Mundial, a constante falta de apoio e a insistência quase obrigatória no jogo directo nunca facilitou a vida dos extremos. O sector que continua a manter a qualidade é, sem questão alguma, a defesa. Ok, a insistência de Ricardo Costa, embora compreensível, foi sem questão alguma a grande falha de Queiroz no teste derradeiro frente à Espanha. Mas penso que a defesa nacional continua a demonstrar grande classe. Portanto, acho que tendo em conta todas estas circunstâncias, é de realçar a qualificação para os oitavos de final, em vez de crucificar o facto de não terem chegado mais longe. Há que relembrar que fomos eliminados por uma das melhores, senão mesmo a melhor selecção do mundo.

Portugal Sub-20 - 1991

Portugal Sub-20 - 1991

Visto isto, penso que o problema não é Carlos Queiroz. Algumas das suas opções são questionáveis, mas é a qualidade dos jogadores que determina o sucesso duma equipa. E penso que Portugal terá de esperar por mais uma fornada como a de 89-91 para poder sonhar com um título numa competição deste nível. Mas isto é futebol, quem sabe se não surgirá um brilharete em 2012?

Argentina fora de jogo

Alemanha - Argentina

Alemanha - Argentina

Deu-me pena ver um jogador como Javier Mascherano nesta equipa da Argentina. Um médio defensivo incrivelmente culto tacticamente não merecia estar inserido numa equipa tão mal construída e organizada. Sem fio de jogo, sem construção, sem posicionamento. Esta é a Argentina do Mundial de 2010. Erros atrás de erros, uma cultura de jogo pobre, sempre na esperança do sucesso individual dos seus melhores jogadores. E num jogo que cada vez é mais táctico e físico, essa solução tem tendência a não aparecer. Foi o que aconteceu com a selecção alvi-celeste, frente ao futebol total da Alemanha. Vejamos alguns pormenores interessantes sobre este jogo:

  • A Alemanha jogou novamente com o seu sistema habitual, a colocação de um falso duplo pivot defensivo à frente da defesa voltou a ser a chave da equipa. Digo falso porque nem Khedira nem Schweinsteiger se fixam numa posição junto à linha defensiva. Ambos são incrivelmente fortes e resistentes, aparecendo sempre nas compensações defensivas ou apoiando as transições ofensivas. Neste último capítulo, o médio do Bayern esteve simplesmente estupendo. Depois, a alusão de que a equipa joga com 2 alas abertos nas faixas também causa alguma visão distorcida na estratégia da Argentina. Tanto Muller como Podolski tem tendência para jogar no centro. Por isso, o jogo apoiado nas alas não é a prioridade da Alemanha, tornando a zona central mais forte ainda. E claro, falta falar de Ozil, o jogador que define o último passe para o ponta de lança Klose ou para os 2 avançados interiores, Podolski e Muller.
  • A Argentina, incrivelmente, joga apenas com um médio centro, obrigando a Messi a tentar fazer o apoio a Mascherano e a buscar jogo atrás. Tanto Maxi Rodriguez como Di Maria jogaram durante bastante tempo encostados nas faixas. Ora, o que acontece: o posicionamento do tal duplo pivot da Alemanha esteve sempre em superioridade em relação ao meio campo da Argentina. Notou-se em várias situações que Mascherano simplesmente não tinha linhas de passe, com a equipa sempre demasiado subida. Pedia-se obrigatoriamente a utilização de mais um médio interior. Mascherano esteve sempre ocupado com as penetrações pelo centro de Ozil, mas o problema é que isto facilitou a vida aos alemães, tanto que toda a frente de ataque aparecia por aquela zona, incluindo os 2 médios centro, sendo que Schweinsteiger sentiu-se como um peixe dentro de água.
  • Apesar da duvidosa qualidade da zona defensiva da Argentina, onde Demichelis e Burdisso foram muito meninos e sempre sem pernas, esta não foi a razão para tamanha humilhação. A questão é que o despovoamento no meio-campo foi o tiro que Maradona deu no seu próprio pé. Sempre na expectativa que o jogo era decidido num lance individual, a equipa perdeu todo o seu equilíbrio. Pedia-se muito a entrada de Veron, Bolatti, Pastore, quem quer que fosse. Aquela zona tinha de ter pelo menos mais um homem. E é nesta altura, embora seja uma questão que tem sido discutida durante meses, que se questiona porque é que jogadores com Cambiasso, Lucho Gonzalez, Fernando Gago ou até mesmo Pablo Aimar não foram convocados. A quantidade de jogadores para a zona mais importante de todo o campo era incrivelmente escassa, para uma equipa que pensou sempre na zona de ataque em vez de estruturar uma equipa equilibrada. Esta foi a grande diferença entre a Argentina e o Brasil, na minha opinião. O Brasil era uma equipa equilibrada, a Argentina não. Mesmo, assim nenhuma delas foi tão brilhante como a equipa alemã, que mesmo orfã de Ballack, conseguiu estruturar o seu jogo e tem uma ocupação de espaços quase perfeito. Eu volto a frisar o duplo pivot da equipa, o grande segredo da equipa. Khedira e Schweinsteiger são excelentes jogadores, sendo que este último é, até agora, o meu jogador preferido da competição. Possante, com qualidade passe, tanto em passe curto ou longo, remate forte, resistência, visão de jogo, pulmão, capacidade de pressão, inteligência nas compensações defensivas e incisivo nas transições ofensivas. Enfim, o jogador completo.

Luiz Suarez

Anti-jogo? É mais… meias-finais do Campeonato do Mundo. E assim nasce mais uma estrela.

Brasil fora da Copa

Devo dizer que foi algo surpreendente ver o Brasil eliminado do Mundial. Às 17h de hoje, estava confirmado o tombo do penta-campeão e a definitiva resposta da Laranja Mecânica, que se assume como favorita a chegar à final. No entanto, o jogo propriamente dito, a meu ver, revela uma história que podia ter sido bem diferente. Será fácil apontar o dedo à equipa do Brasil, quer jogadores, quer equipa técnica, mas pessoalmente acho que a canarinha foi francamente superior e, por alguma falta de sorte e depois demérito e incapacidade na forma como jogou na 2ª parte, tinha tudo para passar às meias-finais. Num jogo bem jogado, as 2 equipas entraram praticamente com os mesmos sistemas. Ambas insistiram num duplo pivot defensivo no meio-campo, Filipe Melo e Gilberto Silva no Brasil, Van Bommel e De Jong na Holanda. E de facto, o Brasil foi claramente superior em toda a primeira parte. O tal pivot defensivo criou grande equilíbrio no meio campo, não dando grandes espaços a Robben e a Sneijder, e ainda foram determinantes no apoio ao grupo da frente, com Robinho, Kaká e Fabiano. Daniel Alves, por sua vez, estava completamente deslocado. A tentativa de dar o corredor a Maicon não funcionou bem. A Holanda, presa pelo ocupação de espaços do Brasil, teve imensas dificuldades.

Holanda - Brasil

Holanda - Brasil


A 2ª parte teve uma história completamente diferente. E tudo começou a cair quando se começa a dar mais espaço a Robben e a Sneijder. Michel Bastos ficou tapado pelo cartão amarelo, Filipe Melo foi perdendo algum fulgor físico e o número de passes errados aumentou exponencialmente. Apesar da nova atitude da Holanda, foi a forma medrosa com que o Brasil entrou é que determinou o jogo. Nesta altura, era fulcral meter um médio interior para o lugar de Daniel Alves. E depois do auto-golo, Filipe Melo passou claramente a ser uma sombra. Surge entretanto o 2º golo, a expulsão de Melo
e fim do sonho canarinho. Apesar de não ser adepto do Brasil (confesso que sou mais fã da Holanda), penso que esta equipa tinha tudo para chegar novamente a uma final. Dunga montou um sistema que, não sendo bonito, enquadrava-se bem com o sistema do adversário. A nível individual, eram claramente superiores. Volto a dizer, o Brasil hoje não ganhou por claro demérito e falta de sorte.

Sonho Terminado

E despedaça-se o sonho. Portugal caiu aos Oitavos de Final frente à actual Campeã Europeia e, indiscutivelmente, uma das melhores selecções da actualidade. Um jogo bastante equilibrado, durante a 1ª parte, Portugal soube fazer uma pressão muito boa, jogando sempre com os 11 jogadores atrás da linha da bola, com um Hugo Almeida em excelente plano, não só no pressing como nas transições de ataque. Atreveria-me a dizer que, ao lado de Coentrão e Eduardo, Almeida foi um dos melhores elementos nacionais em campo.

CR7_Queiroz

CR7 e Queiroz

A segunda parte revelou uma história completamente diferente. A Espanha, que possuí o melhor jogo apoiado do mundo, foi obrigada a começar a construção de jogo mais atrás, ainda no seu meio-campo. E é aqui que Queiroz dá o tiro no pé, quando tenta dar maior mobilidade e velocidade ao ataque, tirando Almeida por Danny. Primeiro que tudo, é um erro crasso tirar o único jogador que estava a fazer pressão sobre os defesas da Espanha. Deixou-se de ter um jogador referência. E pior ainda, entra Danny, que já tinha provado estar fora de forma e sem qualidade de jogo. Um erro crasso do treinador português. A Espanha, lendo bem o jogo, fez exactamente o contrário, colocando Llorente como jogador fixo, obrigando a marcação dos 2 centrais, dando mais espaço para Villa e Iniesta. As dobras que eram feitas nas faixas desapareceram e aqui viu-se bem que a decisão de colocar Ricardo Costa como lateral direito foi outra falha enorme. Outra questão que se levantou teve a haver com a colocação de Pepe. Vou ser franco, acho que Pepe esteve bem enquanto esteve fisicamente apto. Foi um importante jogador para fechar o bloco composto por Tiago e Meireles, mas a questão física foi determinante. Pepe está sem ritmo e foi um erro de casting desta convocatória.

Depois de sofrer o golo, foi sofrer a bom sofrer a ver a Espanha a trocar a bola como ninguém. Como já tinha dito, quem tem Iniesta e Xavi, boa circulação de bola é quase garantida. Nem mesmo as substituições de Mendes e Liedson, já em desespero, foram o tónico para reavivar a selecção que, nesta segunda parte principalmente, nunca foi capaz. A Espanha foi incrivelmente inteligente para começar a construção numa zona do campo onde sabiam que Portugal não ia subir o bloco.

Uma última palavra sobre o nosso astro, Cristiano Ronaldo. Péssima exibição, mas com uma incrível falta de apoio. Com Simão completamente fora de jogo, a responsabilidade caía quase sempre em CR7. Como Portugal tentou sempre jogar em futebol directo para o trio da frente, Ronaldo nunca teve a chance de desequilibrar.

Acabou-se um mero sonho que o povo português alimentou durante estas últimas semanas. É notório que esta selecção está longe da chamada geração de ouro, onde havia um tipo de futebol muito mais bem estruturado e organizado. Por isso, esta eliminação, perante o adversário e o nosso real valor, não é coisa que me deixe muito desanimado, embora fique sempre aquela amargura. Agora é assistir ao resto do Mundial e ver até onde chega esta Espanha, que finalmente aparece nesta competição.

World Cup 2010 – South Africa

Numa fase já adiantada da prova, já é possível ter uma noção do que está a ser este Campeonato do Mundo. Primeiro que tudo, temos que nos convencer que, e isso é o que me irritou mais na reacção do público, o futebol actual está  muito mais físico, muito mais cauteloso, muito mais técnico-táctico. Por isso, é complicado para equipas que baseiam o seu jogo em futebol bonito e apoiado conseguirem impor a sua filosofia em campo. Tem sido, nesse aspecto, uma competição muito rica a nível estratégico. Tirando meia-dúzia de situações, nunca houve um jogo em que houvesse uma esmagadora vitória ou exibição de uma das equipas. Obviamente, retiro os exemplos do Portugal-Coreia e Alemanha-Austrália. Tem sido uma competição muito equilibrada, e isso é fantástico para uma prova destas, que junta selecções dos 4 cantos do mundo.

Prosseguindo, em todas as 32 selecções, houve grandes surpresas, tanto pela positiva como pela negativa, houve grandes confirmações, novamente tanto pela positiva como pela negativa. Primeiro que tudo, as grandes desilusões são obviamente a França e a Itália. As finalistas de 2006 ficaram arredadas logo na primeira fase. Em circunstâncias completamente distintas, diga-se de passagem. A França possuía um plantel fantástico, mas um treinador que já não tinha estabilidade para continuar no comando da selecção. Domenech é obviamente o grande responsável pelo desaire francês, onde a ruptura entre os próprios jogadores também foi evidente. A Itália, por sua vez, está a sofrer uma enorme crise de identidade. Orfã dos grandes craques dos anos 90, princípio dos 2000, a Itália está desesperadamente à procura de jogadores símbolo. Vejamos que o grande nome desta selecção tinha 36 anos! E é defesa! Penso que, independentemente de estar fora de forma ou pela época atribulada que teve no Roma, Totti era uma peça vital, pois é dos últimos resistentes da remessa de grande qualidade que a Itália teve no final dos anos 90. Depois, sofreu imenso pela lesão de Pirlo. Tenho a certeza que com o milanista em forma, a equipa ainda estaria em prova. Mas, como já disse, a Itália está a passar a pior fase dos últimos anos, muito por culpa da invasão de jogadores estrangeiros no scudetto. Vejam que o 11 do actual campeão italiano e europeu tem… nenhum italiano. Isto, meus amigos, diz tudo.

Outra desilusão foi a Dinamarca. Muito por mérito do Japão, obviamente, mas esperava muito mais dos Vikings. No jogo decisivo, foi notória a fadiga e idade já bem avançada dos seus principais intervenientes: Tomasson, Romedahl, Gronkjaer e Jorgensen. Tal como em Itália, é preciso uma nova lufada de ar fresco na Dinamarca. Muitas outras selecções do continente Europeu foram meras miragens, casos da Sérvia, Grécia e Suiça, que em boas situações para singrar, falharam. Por fim, as selecções africanas, num plano geral, com os Camarões e a Nigéria em plano maior. Não falo na Costa do Marfim porque realmente calhou no pior grupo deste Mundial, mas acima de tudo os Camarões, tinham obrigação de fazer mais. A Nigéria, sem Mikel, tornou-se uma equipa mais vulnerável, apesar de ainda ter feito boas exibições, com um excelente guarda-redes.

As surpresas também sido muitas. Os Estados Unidos confirmaram o estatuto que tem vindo a ganhar desde 2002 e parece-me que a equipa, com maior projecção no país norte-americano, pode tornar-se um caso sério. O problema será sempre a popularidade deste desporto, que simplesmente não cativa os jovens americanos. O Japão foi uma grande surpresa, superiorizando-se à Dinamarca de forma brilhante, com bons jogadores e um autêntico craque (Honda). A Nova Zelândia, devido ao impressionante empate frente à Itália, também merece algum destaque. A Coreia do Sul também esteve muito bem, batendo no decisivo jogo inaugural contra a Grécia. Foi o suficiente para os asiáticos chegarem pela 2ª vez aos Oitavos de final de um Mundial.

Destaque óbvio para as equipas sul-americanas. Esperava-se um Brasil e uma Argentina forte, mas a supremacia de todas as equipas do continente foi por demais evidente: Chile, Paraguai e Uruguai exibiram um futebol de excelente qualidade. E atenção com este Luiz Suarez…

Uma palavra de apreço à melhor equipa africana em prova: o Gana. Em 2006, mostrou excelente serviço e, depois de provar enorme talento nos sub-20, eis que o Gana está pronto para as curvas. Com uma selecção jovem e incrivelmente física, apenas a inexperiência pode travar esta equipa. Frente ao Uruguai, este grupo de jovens vai ter o derradeiro teste de fogo.

Por fim, no continente Europeu, falta ainda falar sobre a confirmação de todo o trabalho que Klinsmann começou e Low continuou sem mácula. Este 4-1 frente à Inglaterra, apesar do golo anulado, não foi obra do acaso. Uma equipa incrivelmente consistente, muito bem estruturada, futebol físico, directo ou apoiado, consoante as situações, enfim. É provavelmente a melhor selecção deste mundial. A Inglaterra, continuando a insistir num futebol directo, apenas com médios interiores, falhou redondamente. A Espanha, apesar da derrota inicial, continua a ser a maior candidata. O problema dos espanhóis pode muito bem ser esta próxima eliminatória, frente a Portugal, que defensivamente é a melhor equipa da prova. Bruno Alves, Ricardo Carvalho e Pedro Mendes tem sido autênticos esteios da selecção nacional. Será um fabuloso jogo, em que Portugal terá de saber explorar o contra-ataque em transições rápidas, porque a Espanha vai obviamente apostar no seu terrível futebol apoiado. Quem tem Xavi, Iniesta, Fabregas…

Uma breve análise a este Mundial. Muito competitivo, não muito bonito, mas equilibrado. Estratégias bem montadas, boas definições de jogo. Defensivo? Jogar a medo? Talvez… mas este é, quer queiram quer não, o futebol actual.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 464 outros seguidores